
A gente pode até acreditar naquilo que não conhece, que nunca viu, ou ouviu falar a respeito ou ao menos, gerar uma dúvida, um será que é isso mesmo? Será que isso é possível?
A gente vai confirmando que rede social é palanque de espetáculos imaginários, de ostentação para alimentar sonhos próprios e instigar os alheios.
Há épocas, nas quais parece haver um surto coletivo e imaginativo nas redes sociais, são dois principais momentos: dia dos namorados e Natal!
Dia dos namorados postagens maravilhosas, espetaculares, casais românticos, jantar à luz de velas, viagens para lugares paradisíacos, declarações de amor, pétalas de rosas, beijos apaixonados, realmente digno de um romance de Hollywood. Vende amor e verdade, menos para quem conhece os bastidores conturbados dos mesmos relacionamentos, do casamento de fachada, da vida na mesma casa mas em quartos separados, da falta de intimidade, da falta de diálogo, de afeto. Uma vida pro forma, mas que vende a família margarina invejável. Com papai, mamãe, filhos, e até os pets.
Quem conhece sabe que essa realidade não existe, e que além disso, nesse combo omitiram a amante, as puladas de cerca, as noites fora de casa, as noites mal dormidas ou não dormidas, as lágrimas sugadas pelo travesseiro. A maquiagem para esconder as olheiras e a maquiagem alegre para produzir um ar saudável e um sorriso fabricado. Ah, e muitas vezes, a “outra” até curte as postagens românticas do ninho de amor.
Já no Natal, não foge muito ao script anterior. Famílias lindas, todos arrumados impecavelmente, tanto quanto a mesa: luzes piscando, iluminando a noite, gorrinhos de Papai Noel, guirlandas desejando as boas-vindas na porta, presentes e mais presentes na árvore de Natal. A pose para a foto de família, aliás a foto DA família. Fotos com direito a legenda, claro! Das mais criativas às mais ousadas, que nem ouso reproduzi-las.
Invejável, se não conhecêssemos a verdade por trás das telas. Ah, claro, por óbvio que não seria leviana em dizer que TODAS as famílias sejam assim, que não existe verdade nas famílias, nas ceias, nas noites de Natal ou qualquer outra comemoração ou data festiva. Falo daquelas que a gente conhece os bastidores e não tem nada a ver com o palco das redes sociais.
Por que estou falando sobre isso? Primeiro que causa, minimamente, estranheza severa. E tantas outras reflexões no bojo do que se mostra em desconformidade com a realidade. Mas o principal motivo é realmente trazer luz à uma reflexão de extrema relevância.
O que parece ser apenas postagens inocentes, apenas para ter algo “bonito” para postar nas redes sociais e sentir-se “normal”, na verdade, fazer parte do momento, das festividades coletivas, ainda que tendo consciência plena que há um abismo entre o que posta e o que vive. Ainda que apenas você saiba dessa realidade paralela que vive.
Há muitos estudos sobre essas épocas, depressão, ansiedade, solidão, melancolia, estresse, tristeza, a saúde mental é abalada, e então surge o quadro das “dezembrites”, e sim, é aqui o ponto que quero de fato abordar, nessas duas grandes comemorações: Dia dos Namorados e Natal, que representam, o relacionamento afetivo, amor, casamento e o Natal, a representação da família, união, fartura, alegria, sorrisos, abraços e beijos.
São as duas datas em que há mais problemas com quem tem uma vida mediana, com os problemas em família, com escassez, por vezes, inclusive alimentar. Com famílias desestruturadas, com tudo o que todos sabem que existe. Nessa época, é onde tudo torna-se exagerado, a alegria e a tristeza, tudo é potencializado.
Oras então quer dizer que as famílias e casais que realmente são felizes e famílias estruturadas, prósperas, saudáveis e felizes não devem expressar a vida próspera, real e feliz para não refletir em quem não as tem?
Por óbvio que não é nada disso! Mas algumas reflexões para
serem feitas: qual a necessidade de mostrar aquilo que não é verdade? Qual a sua necessidade de forjar sua vida real? Quer enganar à quem: você ou aos outros? Para quem conhece a sua realidade, e vê uma postagem forjada, o que fica como verdade, para além da postagem? Diante de tantas postagens mostrando uma “vida perfeita fabricada “, qual o impacto disso para você mesma e para toda uma sociedade? Até mesmo para você mesma que consome uma “vida perfeita do outro”, que também pode ser “fabricada” e por isso você também queira “fabricar” a sua!
Eu conheço quem diga “eu tenho que respirar fundo para não explodir com meu marido, é muito difícil nisso, nisso, naquilo e mais aquilo outro”, e nas redes sociais é o casal mais perfeito que eu já vi na minha vida. Produzem conteúdo, e sim, se tornam um exemplo de casal perfeito, alma gêmea, sonho de consumo para qualquer um. Vende o casamento dos sonhos mas …quando a gente conhece os bastidores, e ainda assim, bastidores bem restritos, daqueles que lhe contam e dizem: pelo amor de Deus, ninguém pode saber , nem mesmo meu marido. Sim, ele não sabe que ela se sente assim, por mais que diga em 10/10 postagens que é o marido perfeito, até ele acredita.
Para quem conhece a própria realidade, e vende outra, sabe que não existe a legenda que você vende, reveja. Eu vi muitas, muitas postagens que vendiam uma “realidade fabricada”, como se tivesse sido criada por IA.
“Família é tudo…”, mas o ano inteiro a pessoa reclamou da família. Essa família que não é real, não é presente, não é saudável, não é nem família.
“Minha família…”, desestruturada, sofrendo violência doméstica, psicológica, patrimonial e muitas outras situações.
Que fique a reflexão: quer enganar à quem? Está gostoso viver no Mundo de Alice? Qual o preço que você está pagando para viver nessa realidade paralela? Qual é a moeda de troca dessa “vida idealizada”, é sua saúde mental? De onde vem essa sua síndrome de Cazuza “O nosso amor a gente inventa”?
O pior e mais severo paciente terminal, é aquele que não QUER enxergar que tem uma “doença”. Logo, se ele não enxerga e se enxerga não aceita que tem uma “doença”, então, ele não enxerga e não aceita um “tratamento” que vai levá-lo a cura. Vale ainda a máxima: o pior cego é aquele que NÃO QUER enxergar!
Não adianta aplicar filtro com glitter rosa sobre um cenário mofado. A foto vai ficar linda mas VOCÊ sabe que aplicou o filtro para esconder a REALIDADE que nem você suporta ver.
Se tem quem vende é porque tem quem compra! Se tem quem compra é porque tem quem vende… por que você mostra uma vida perfeita que não existe? Aliás, perfeita, não existe mesmo! Existem umas “bem boas” mas também existem umas “bem ruins”… não coloca “glitter” não, você mesma pode acreditar nas mentiras que conta. O resultado? Igual areia movediça…

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