
Um amor, lua de mel, mar de rosas, família margarina, vida “perfeita”, sim, entre aspas, pois, família e vida perfeita não existe.
No começo, tudo é lindo, maravilhoso, um verdadeiro conto de fadas, chamego para lá, amor para cá, exatamente como deve ser, espera-se que seja, merecemos que assim seja.
E sim, fato é, que por um bom tempo costuma realmente ser, tudo como manda o figurino, até mesmo porque, a paixão está no ar, tudo é novidade, inclusive, exatamente por esses elementos como paixão, novidade, e tantos outros que fazem com que a vida a dois, seja construída, pautada no relacionamento perfeito.
Tantos planos, tantos sonhos, tantas conquistas, tanta admiração e respeito existe um pelo outro. Casa nova, cama nova, cafeteira nova, aparelho de jantar novo, vida nova, nova vida. Colocando em prática, fazendo valer e materializando tudo aquilo que foi sonhado, planejado, muitas vezes, durante uma vida toda ou grande parte dela.
Tudo pensado minuciosamente, desde a cor do sofá, ornando com as cortinas e o abajur de luz amarela no canto da sala, trazendo aquele ar de sofisticação, beleza e conforto. As flores exalando perfume pela sala, são aquelas mesmas que ora são compradas e ora são ganhadas como demonstrativo de amor, afeto, carinho, atenção e cuidado.
Perfeito, nunca sonhou com essa vida a dois? Assim, desse jeitinho, tudo com encaixe perfeito. Ah claro, lembrando das noites de amor, como se não houvesse amanhã. Ainda que o amanhã seja segunda-feira, no auge do inverno, marcada por uma chuva torrencial, e sim, dia de levantar ainda nas primeiras horas do amanhecer para ir labutar. Entretanto, esse cenário da segunda-feira, nunca foi impeditivo para aquecer e bagunçar os lençóis de cetim, se é que me fiz clara!
O tempo passa, sim, ele passa. Por um motivo ou outro, por isso ou aquilo, por tudo isso junto, não raras vezes, esse cenário perfeito, digno de conto de fadas, nem sempre permanece existindo, tal qual, no início do relacionamento.
A vida se impõe, releva seus labirintos, suas encruzilhadas, seus becos e escancara a realidade, desnudando os véus que enfeitavam e traziam leveza e suavidade ao ninho de amor. O mais desafiador ou talvez constrangedor disso tudo, é que muitas vezes, sim, pasmem, não é percebido, assim de bate e pronto, que as coisas foram ou estão mudando e que a calmaria do mar de rosas, transformou-se em um mar revolto, no qual, cada um tenta sobreviver como dá, como pode, ou simplesmente, apenas está indo conforme a maré leva.
Sem perceber, sem nem se dar conta que está apenas indo. Para onde? Se não percebeu nem que está indo, sendo levada, quiçá, para onde. De repente, em um momento qualquer, algo acontece que faz perceber que não se deu ou não se deram conta que haviam perdido o controle do barco da vida.
Chega então a hora de assumir o leme e traçar estratégia para o caminho de volta. Para voltar a navegar em mares mais calmos, há vezes em que é possível, outras, nem tanto, ou não tão facilmente.
Entre idas e vindas, entre a alternância de mares revoltos ou da calmaria deles, muitas vezes, já perderam o rumo, perderam o prazer de navegar. O que antes, era um prazer, passa a ser apenas uma obrigação de manter o controle para que o barco não afunde. Para que consigam sobreviver, para que realmente o barco não afunde e sigam a rota.
Barcos? Não, essa conversa não é sobre barcos, tampouco, sobre mares ou marés. Essa conversa é sobre as camadas mais profundas de um relacionamento. É sobre aquilo que sem perceber, entra no piloto
automático, se faz hábito, rotina, os mesmos casos e descasos.
É sobre afastamentos, idas sem voltas mesmo que seja como uma esteira ergométrica, que você caminha, caminha, caminha por horas e não sai do lugar. É como um livro que você consome as narrativas, mergulha em suas páginas, vivencia a história, se vê como protagonista da história, viaja o mundo, mas não saiu do sofá da sala, aquele que você escolheu o tom perfeito para combinar com a cortina e aquele abajur de luz amarela, sofisticado e aconchegante.
Esse mesmo sofá que com o tempo está gasto, desbotado e no canto que você mais senta para se fazer protagonista da história alheia, já está até com o tecido esgarçadinho. O esgarçamento do tecido do sofá, facilmente escondido com uma manta ou uma simples almofada colocada estrategicamente naquele ponto exato para esconder o desgaste, o esgarçamento, as manchas, a sujeira.
Assim como muitas vezes, você faz com o esgarçamento conjugal. Você coloca não uma manta como faz com o sofá mas coloca panos quentes, para não ter que enxergar a vida como ela é.
Na mesa da sala já não tem mais as flores que perfumavam a casa, raramente tem flores, aliás, tem mas não perfumam. Assim como a vida, ficou plástica, artificial e apenas em ocasiões muito especiais, as flores naturais, voltam a perfumar a sala, a vida.
Entre mares revoltos, romances nos livros, flores artificiais, a troca de longas conversas gostosas e inteligentes, regadas à taças de vinho ou xícaras de chá, as séries no streaming roubaram espaço. As redes sociais ou até os livros, ganharam espaço que antes era apenas do casal. Os filhos, as plantas, os pets, gatos e cachorros recebem mais atenção, carinho e cafuné que antes era inegociável ao amado.
Os lençóis bagunçados pelas noites quentes de amor, agora quase amanhecem intactos, como se ninguém tivesse passado a noite ali. E quando essas noites que bagunçam os lençóis acontecem, são tão esporádicas que se tornam quase um evento.
Do beijo quente, na boca, claro, aqueles de tirar o fôlego, com o tempo, se transformam em selinhos nos lábios ou o beijo por demais respeitoso na testa. A libido, ah a libido, essa parece ter tirado ano sabático…
Assim como no começo, o casamento continua bom, quer dizer, o relacionamento entre duas pessoas que moram na mesma casa, dividem o mesmo teto, cama, mesa e até banho, está ótimo. Acredite, viajam nos finais de semana, feriados prolongados, fazem churrasco com amigos e familiares, compram panelas novas para a casa e adotam gatinhos na feira de doação na praça da cidade. Tudo perfeito, assim como dois irmãos, dois melhores amigos, que dividem a casa, as contas, a vida.
Não, não há brigas, discussões, não há impasses, não há problemas, não nada. É, é isso, exatamente isso, não há NADA! Há apenas companheirismo, amizade e até respeito, assim como quem divide apartamento com um melhor amigo querido. Para ter uma companhia, tem gente que não precisa desse modelo de vida mas não gosta de morar sozinho, e ter alguém calmo, inteligente, educado, respeitoso por perto, pode entender que é um “achado”.
É assim, entre idas e vindas, perdas e ganhos, ônus e bônus, que sem perceber, a indiferença já não faz diferença alguma. É assim que na ausência de presenças reais, verdadeiras, presença presente que as ausências são naturalizadas, e nem sequer são percebidas como ausências.
Afinal, o que ali está todos os dias, há anos, já virou uma “mobília afetiva”. Falta não faz, mas pela força do hábito, continua ornando assim como abajur de luz amarela aconchegante no canto da sala.

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