De Fato News

Sexta-feira, 25 de Setembro de 2026
ECO EXÉRCITO
ECO EXÉRCITO

Saúde

Diagnóstico tardio de autismo revela anos de desafios para mulheres

Especialistas apontam que critérios baseados em perfis masculinos atrasaram o reconhecimento da condição e, consequentemente, o acesso a direitos. Confira histórias de quem tem o transtorno e como foi para diagnosticá-lo

Domingos Poeta
Por Domingos Poeta
Diagnóstico tardio de autismo revela anos de desafios para mulheres
IMPRIMIR
Espaço para a comunicação de erros nesta postagem
Máximo 600 caracteres.

Antes de existir um nome para explicar o que sentiam, muitas mulheres passaram a vida tentando apenas "dar conta". Aprenderam a esconder o desconforto, a imitar comportamentos para se encaixar, a conviver com a sensação constante de serem diferentes e, muitas vezes, foram vistas apenas como tímidas, ansiosas ou "difíceis de lidar". O diagnóstico do Transtorno do Espectro Autista (TEA), que chegou na vida adulta para tantas delas, não muda quem sempre foram, mas oferece, pela primeira vez, uma resposta capaz de reorganizar uma história inteira. Ao mesmo tempo em que traz alívio e pertencimento, também revela os anos em que direitos e acolhimento deixaram de fazer parte de suas trajetórias.

Uma publicação de 2025 na revista Autism Research (Pesquisa do Autismo) considera o diagnóstico tardio quando o autismo é identificado apenas anos após a infância, apesar de suas características estarem presentes desde o desenvolvimento inicial.

Dados da Secretaria Extraordinária da Pessoa com Deficiência do Distrito Federal (SEPD-DF) mostram que, em 2025, foram aprovados 7.477 cadastros para emissão da Carteira de Identificação da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista (CIPTEA). Em 2026, até 29 de julho, o número chegou a 3.360. No recorte por gênero, em 2025, foram registrados 4.741 homens e 3.296 mulheres, enquanto em 2026 os números são de 1.758 homens e 1.286 mulheres.

Leia Também:

Para o secretário da pasta, William Cunha, os dados ainda não traduzem a realidade completa. "Ainda há muitas pessoas, especialmente mulheres, que recebem o diagnóstico apenas na vida adulta ou sequer conseguem chegar a esse diagnóstico", afirma.

Segundo a psicóloga e neurocientista Mayara Gaiato, isso acontece porque, durante décadas, o conhecimento científico sobre o autismo foi construído a partir de estudos com meninos. "Sobretudo meninos brancos com manifestações mais visíveis. Instrumentos diagnósticos e descrições clínicas passaram a reconhecer com maior facilidade esse perfil", explica.

Ela destaca que, nas meninas, os sinais costumam aparecer de maneira diferente. "Algumas conseguem iniciar conversas, observam e copiam comportamentos sociais, mantêm contato visual aprendido ou circulam perto de grupos sem necessariamente compreender plenamente as relações."

 

Essa capacidade de adaptação é conhecida como masking, ou camuflagem social. "Muitas meninas observam e reproduzem comportamentos das colegas para esconder dificuldades sociais, imitam expressões faciais, ensaiam conversas e reprimem características naturais para tentar se encaixar. Isso pode fazer com que passem anos sem diagnóstico, mas tem um custo elevado para a saúde mental", diz Mayara.

Longa espera

A servidora pública Cecília Lima Ramos, 38 anos, moradora do Jardim Botânico, recebeu o diagnóstico aos 36 anos. Somente neste ano, conseguiu o reconhecimento da condição no ambiente de trabalho. Ela explica que também possui superdotação e TDAH, fatores que acabaram mascarando o autismo durante décadas.

"Em casa e no trabalho, tive que provar o diagnóstico", relata. "É um misto de desespero e alívio, porque o diagnóstico tardio chega quando você já tentou tudo." Ao falar com outras mulheres, ela deixa um conselho: "Não relevem o cuidado com vocês. O pior não é procurar um psiquiatra. O pior é adoecer".

A estudante Júlia Flausino Martins, 21, de Formosa (GO), recebeu o diagnóstico aos 17 anos. Embora os primeiros sinais tenham surgido ainda na infância, ela passou anos acreditando que suas dificuldades eram apenas traços da personalidade. Durante o ensino médio, os sintomas se intensificaram. "Tive problemas de adaptação, timidez exagerada e queria ter falta de contato absoluta. Criei pânico de falar, de me expressar", conta.

"Isso escalou tanto, ao ponto de eu mandar cartas para me comunicar com pessoas que moravam na minha casa, porque tinha medo do que as pessoas iam achar de mim se eu fosse autista", completa. Ela também desenvolveu gagueira e mutismo seletivo.

Apesar das dificuldades, o diagnóstico trouxe uma nova perspectiva. "Fiquei tranquila quando tive o diagnóstico por saber que aquilo tinha um nome e que agora eu poderia ir no meu ritmo. Receber a luz do diagnóstico é libertador."

A estudante Júlia Flausino Martins, 21, de Formosa (GO), recebeu o diagnóstico aos 17 anos. Embora os primeiros sinais tenham surgido ainda na infância, ela passou anos acreditando que suas dificuldades eram apenas traços da personalidade. Durante o ensino médio, os sintomas se intensificaram. "Tive problemas de adaptação, timidez exagerada e queria ter falta de contato absoluta. Criei pânico de falar, de me expressar", conta.

"Isso escalou tanto, ao ponto de eu mandar cartas para me comunicar com pessoas que moravam na minha casa, porque tinha medo do que as pessoas iam achar de mim se eu fosse autista", completa. Ela também desenvolveu gagueira e mutismo seletivo.

Apesar das dificuldades, o diagnóstico trouxe uma nova perspectiva. "Fiquei tranquila quando tive o diagnóstico por saber que aquilo tinha um nome e que agora eu poderia ir no meu ritmo. Receber a luz do diagnóstico é libertador."

Júlia Flausino acreditava que suas dificuldades eram apenas traços da personalidade

Empreendedora, Ana Gabrielly Faria, 21, moradora de Samambaia Sul, recebeu o diagnóstico aos 19 anos, depois de buscar acompanhamento psicológico já casada. "Desde a infância, eu sentia que havia algo diferente em mim. Nunca me percebi igual às outras pessoas."

Ela conta que chegou a procurar ajuda outras vezes, mas ninguém levantou a hipótese de autismo. "Muitas das minhas dificuldades não eram visíveis para quem estava de fora. Quando o diagnóstico foi confirmado, senti que finalmente havia encontrado uma resposta para algo que me acompanhava desde criança."

O primeiro sentimento, no entanto, não foi de alívio. "Foi uma mistura de medo, tristeza e frustração por pensar que eu poderia ter entendido tudo isso muito antes", disse. Mesmo assim, ainda enfrenta preconceitos. "Muitas vezes, sinto que minha opinião passa a ser menos valorizada ou que minha capacidade é colocada em dúvida. O diagnóstico não mudou quem eu sou, me deu ferramentas para me compreender com mais gentileza."

Direitos

A Secretaria de Saúde destaca que o diagnóstico é realizado por meio de uma avaliação clínica criteriosa e multiprofissional, e não por exames laboratoriais ou de imagem. “O acesso ao diagnóstico e ao tratamento não depende da idade”, reforça a pasta. A orientação é que pessoas com sinais sugestivos do transtorno procurem inicialmente uma Unidade Básica de Saúde (UBS), responsável pelo acolhimento, avaliação inicial e, quando necessário, encaminhamento para os serviços especializados da rede.

Embora muitas mulheres só descubram o autismo na vida adulta, os direitos previstos na legislação brasileira permanecem garantidos. Segundo a advogada especialista em pessoas com deficiência Adriana Monteiro, muitas dessas mulheres passaram a vida enfrentando dificuldades na escola, no trabalho e nas relações sociais sem o suporte adequado.

FONTE/CRÉDITOS: https://www.correiobraziliense.com.br/
Comentários:
Domingos Poeta

Publicado por:

Domingos Poeta

Saiba Mais

/Dê sua opinião

Qual o seu nível de satisfação em relação ao serviço público prestado?

ECO EXÉRCITO

Nossas notícias no celular

Receba as notícias do De Fato News no seu app favorito de mensagens.

Telegram
Whatsapp
Entrar
ANUNCIE AQUI!
ANUNCIE AQUI!
ECO EXÉRCITO
ECO EXÉRCITO
ANUNCIE SUA EMPRESA AQUI!
ANUNCIE SUA EMPRESA AQUI!