
Qual é o preço de "engolir" as próprias verdades?
Quando você sabe o quanto custa, qual o preço que paga por engolir as verdades que lhe rasgam a garganta, que lhe roubam a segurança conjugal, que lhe furtam a alegria, encarceram a felicidade, sequestram lhe o brilho, paralisam os sonhos.
Quando você idealizou viver a vida dos sonhos, recheada de alegrias, amores e felicidades, entretanto, entre sonhos e desejos, sabia que apesar da oferta de um mundo cor-de-rosa, não era bem assim, a realidade que se despontava no horizonte.
Entre amores e conquistas, construções e idealizações, havia ali verdades reais, daquelas indigestas, que o mundo podia não tomar conhecimento, que os mais próximos ou mais distantes podiam sequer, nem no mais remoto pensamento imaginar que aquele conto de fadas, já vinha com final escrito, construído e não era aquele final tão feliz como o idealizado.
Sim, sabemos dos remendos dos tecidos, sabemos das goteiras no canto da sala, sim, sabemos dos buracos no meio do piso da sala de visitas. E não, não adianta colocar o tapete mais caro no centro da sala, para esconder os buracos. Não adianta colocar aquela planta maravilhosa para que as goteiras desemboquem nela. Não adianta, fazer um remendo no tecido nobre da cortina, como se estilo fosse. Por que?
Porque você só enganaria aos outros, você só enganaria na verdade a si mesma, mascarando as mazelas que construiu, jogando a sujeira para debaixo do tapete, na parte debaixo do sofá. Com o tempo, o mofo atrás do sofá aos poucos vai aparecendo, mesmo que toda semana, você faça faxina, passe água sanitária e esfregue com escovão, ali estarão as marcas com o cheiro de mofo, misturado com água sanitária, com as pontas dos dedos esfoladas e ainda assim, você acredita que ninguém saiba das paredes mofadas, das goteiras, dos rasgos e furos.
Não, não estou falando de rasgos em tecidos, buracos no piso, mofo na parede e faxina na casa, mas sim, de buracos na alma, goteira no bom senso e mofo no caráter. Estou falando que a gente sabe quando começa algo errado, quando quer entrar onde não cabe, quando quer o que não tem espaço para ser. A gente sabe quando o começo caminha em paralelo ao fim.
A gente sabe quando mascara as verdades, quando mascara as tristezas vividas, quando finge o convivio com a felicidade, quando finge que não sabe, para não ter que tomar uma atitude. A gente sabe quando o melhor a fazer é se esconder, evadir-se, fugir para as montanhas para não aceitar a verdade que se impõe. Quando se fazer de cega para não enxergar a realidade dolorosa, para não dar o braço a torcer. Quando dilacerar a alma, para não aceitar o que é , o que sempre foi e sempre será.
Tem coisas na vida que não é para ser, que não é para nós, que a gente até força para fazer parte, que a gente se engana e engana ao outro e aos outros, para inventar uma verdade para as mentiras que criamos. Para colorirmos a vida que sabemos não ter cor, não ter brilho, não ter vida. Sim, a gente tem uma criatividade fantástica para inventarmos nosso próprio conto de fadas, nosso mar de rosas, nosso príncipe encantado, mas sabemos que essa história não é nossa, que o protagonismo é fake, roubado, furtado, fingido.
Essas histórias inventadas, roubadas, apropriadas, invadidas, são como pés de bailarinas, esfolados, machucados, sangrentos, calosos, esmagados por dentro das sapatilhas, enquanto elas sorriem, dançando com a leveza de uma pluma, mas sangrando por dentro. E quem está de fora, sequer imagina o quanto está doendo passar por aquilo. Ah sim, claro, ela escolheu se esfolar, sangrar por dentro e sorrir ao mesmo tempo.
Onde é que você encontrou um refúgio para se esconder? Dos outros? Não de si mesma! A péssima noticia é que você não consegue se esconder de si mesma, você pode ir para as montanhas, para o meio do mato, para a caverna , mas seus monstros, seus medos, os gritos do silêncio estarão sempre dentro de você.
Há escolhas na vida, que não temos para onde correr, fugir e evadirmos, afinal, corpo, mente e alma não se separam, e sim, sabem exatamente, onde estivemos e o que fizemos no verão passado, no verão de uma década ou mais.
O que resta? Bem, o que resta é aceitar viver com as escolhas que fizemos. Escolhas erradas e falta de coragem de assumir que não nos cabem mais, é um passaporte com visto permanente para viver com a tristeza, com o vazio, e acordando todos os dias, maquiando a tristeza com um blush e um batom para dar um colorido na sua vida sem cor, sem brilho, opaca e pasme, borrada. Borrada como um urso panda, com aquela marca escura na área dos olhos, do borrão do lápis preto de olho, o rímel e as lágrimas. Que sim, você esconde e lava embaixo do chuveiro, escondida. Acreditando que a tristeza e a insegurança escorrerão pelo ralo abaixo entre lágrima e água.
Quanto você está pagando e por quanto tempo ainda vai carregar todas as mazelas de ter entrado onde não era para ter entrado? Por estar mentindo para si mesma, apenas, para não ter que tomar uma atitude na sua vida? Como encarar a realidade e se libertar da vida de fachada, se o ego não lhe permite, não é mesmo? Até quando vai viver fingindo ser feliz, apenas para não deixar que o outro seja feliz?
A vida é transitória, não desperdice, pare de fingir e fugir, vai ser feliz!

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