
Um convite a reflexão e que não seja pautada apenas em expressões consagradas e conservadoras e isso não tem nada a ver com crenças religiosas. Entretanto, faz-se necessário que verdades entendidas como inquestionáveis, sejam sim, refletidas e questionadas.
De quais tecidos são revestidos um relacionamento? Quais são os marcadores da conjugalidade real, efetiva, aquela na qual a realidade é desnuda ao cair do véu da rotina cotidiana.
A vida conjugal não é feita de flores e do colorido de uma manhã de setembro, não é feita de crenças como: “Até que a morte nos separe”, “a partir de agora tornam-se um só corpo”. A vida conjugal, não é feita de metades ou tampas, sejam metades das laranjas ou tampas das panelas mas de inteiros e conjuntos, ao mesmo tempo há o paradoxo da individualidade, sim, um casal que continuam sendo dois indivíduos.
Um relacionamento é feito de dois indivíduos cheios de metades e falhas em si mesmos. E não há de se buscar a completude de suas falhas e até escassez na esperança de que o outro lhe complete a parte faltante, ausente, carente. Haja vista, o outro também ser revestido pelos mesmos tecidos. E se ele tirar a melhor parte dele para preencher a faltante do outro. Pode ser que lhe reste apenas a parte que contenha rasgos, dilacerações e cicatrizes.
Quando entregamos a melhor parte de nós, e sim, todos queremos entregar a parte premium ao outro, o que entregamos a nós mesmos? É como a metáfora do copo de requeijão, Servimos a visita com taças do mais nobre cristal, mas nos servimos no copo de requeijão com a borda lascada. Até quando nos suportaremos com nossas “bordas trincadas”?
Somos compostos de tecidos nobres mas todos temos avarias no cerzido pelo lado de dentro da barra. Nossos cerzidos são de nossa responsabilidade, não há que responsabilizar o outro, quando no tombamento na lavagem, na máquina de lavar, os tecidos se embolam e os fiapos se embaraçam e ao tentar desfazer os nós de nós, nos rasgamos para além dos cerzidos, até então, ora escondidos pelo lado de dentro das barras.
Há de se ter responsabilidade por si, por suas verdades e integralidade de ações para não responsabilizar o outro, por suas faltas, carências, ausências, medos e frustrações.
A conjugalidade requer maturidade em grau máximo, para que não viva a vida do outro mas que sim, viva a vida com o outro. Para que não interrompa seus sonhos para viver os sonhos do outro. Vivam sonhos juntos mas não os sonhos do outro.
Compartilhem partes inteiras, curadas e não esfarrapadas e adoecidas. Cure-se, faça terapia, reintegre-se, essa é sua responsabilidade e não do outro. Ninguém é centro de reabilitação de traumas alheios, no mínimo, os próprios. O outro não é responsável por juntar seus pedaços traumatizados da infância. Não é responsável por suturar suas feridas, tampouco, remendar seus fiapos desconectados da convivência saudável mas sim que estão emaranhados de ansiedade e amarguras.
Desnecessário seria afirmar, se fosse consciência inquestionável, da necessidade de não se anular , mas sim de existir na conjugalidade. Não se anule, exista. Não se diminua, ocupe o espaço que seja necessário para lhe caber e não se embotar. Na tentativa de acertar e acolher, muitas vezes, acaba sufocando, cerceando e impedindo caminhos possíveis a si e ao outro.
A conjugalidade é uma escolha, não uma obrigação, uma imposição, portanto, não seja a continuação da dor do outro. Se puder auxiliar no tratamento, sim, mas não permita ser adoecido pelas doenças do outro. Lembre-se sempre, pessoas feridas, ferem pessoas. Jamais permita que sangrem suas feridas sobre você para que você não seja colocado para sangrar em tanque de tubarões.
Julgamentos sempre farão parte da convivência, porque fez ou deixou de fazer, porque fez de mais ou de menos. Entretanto, julgamentos, por vezes, são tão primários e superficiais que não contemplam a realidade experienciada. Majoritariamente, nas relações, olham para o próprio umbigo primeiro, e só depois, caso possível, é lançado um olhar para o umbigo alheio, isto é, o outro, no caso: você!
Relacionamento não é conto de fadas, não é para pessoas imaturas, inseguras, mimadas, traumatizadas, fracas e adoecidas emocionalmente. Também não é para quem reconhecidamente é apenas metade de tudo o que busca. Pois, em sendo metades, o que terá para entregar na troca? Haja vista, já lhe faltar a outra metade? Se o outro lhe entrega e nada recebe em troca, porque você não tem nada a oferecer, por quanto tempo acredita que essa relação suportará esse déficit emocional?
Vale a máxima: “não é o amor que dá suporte ao relacionamento, mas o relacionamento que dá suporte ao amor”. Qual suporte você tem para sustentar o relacionamento? Conjugalidade é uma sociedade. Não há sociedade que seja longeva e saudável, no qual as entregas sejam desiguais. Como uma conta conjunta, no qual um só deposita e o outro só saca. É uma sociedade com tempo de validade pré- determinada, a curto prazo.
A conjugalidade requer mais que amor, lastro em inteligência emocional. Não permita JAMAIS fazer parte da coleção de traumas emocionais disfarçados de pecinhas coloridas como se fossem “legos”, e você ser nada mais que uma das peças do “brinquedo” que o outro “brinca”.
Não é o outro quem te adoece, é você quem permite que o outro lhe adoeça. Aprenda a distinguir bem suas escolhas e ações para não ser algoz de si mesmo.
Lembre-se SEMPRE: não há perfeição em ninguém, e ninguém é o preenchimento de suas ausências, fracassos, medos, insucessos e traumas. Um relacionamento se faz de dois inteiros e não de duas metades.

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