"Ter vizinho é como jogar na loteria". Lúcia Mendes*, de 42 anos, não teve muita sorte ao mudar para um condomínio em Santo Amaro, na Zona Sul de São Paulo, há dois anos em busca de uma ambiente mais controlado, onde os dois filhos pudessem brincar com segurança e conforto em áreas livres.
- Esta reportagem faz parte da série Vizinhança em Guerra, que aborda a crescente violência em condomínios na cidade de São Paulo a partir das histórias de moradores vítimas de agressões físicas, verbais e até emocionais.
Embora tente levar boa parte dos conflitos com humor, não esconde que, no fundo, existe uma preocupação real com os episódios presenciados. Em um dos casos mais graves, presenciou a agressão de um morador ao porteiro após uma encomenda ser extraviada.
“Às vezes, você vê no aplicativo que a encomenda foi entregue, mas chega na portaria e não encontra nada. Muitas vezes, entregam para a pessoa ou apartamento errado --isso já aconteceu bastante. Por causa dessa confusão na administração de correspondências, já teve morador que partiu para cima do porteiro. Foi agressão mesmo. No meu ver, se você recebe algo que não é seu, o mínimo que se espera é que devolva, não é mesmo?”, contou Lúcia Mendes, em entrevista exclusiva ao Terra, mencionando que, em certos casos, foi necessário acionar a Polícia Militar para conter os ânimos.
O condomínio onde Lúcia mora possui três torres, e, segundo ela, cada uma ganhou um apelido relacionado às reclamações mais frequentes dos moradores: torre da droga, do amor e do inferno. “Na primeira, onde eu moro, encontram restos de baseado [maconha] e pinos de cocaína vazios; na segunda, as reclamações são por causa de gemidos; e na terceira é onde tudo acontece”, explicou.
Em outro episódio de agressão, um morador --incomodado com o barulho que as crianças faziam na área da piscina, próxima à segunda torre-- resolveu, em diferentes ocasiões, arremessar pedras de gelo contra elas, atingindo um dos menores. A Polícia Militar foi novamente acionada, e o caso virou pauta constante nas assembleias.
“Lembro que gerou muita comoção, principalmente por envolver crianças. Elas ficam na área da piscina, mesmo sem brincar na água, porque falta espaço de lazer. Sei que, quando descobriram o apartamento do vizinho responsável, tentaram confrontá-lo, bateram na porta, mas ele não atendeu. O que soube é que a polícia precisou intervir e o caso está, agora, na Justiça.”
‘Pedi uma medida protetiva contra minha vizinha’
Já Roberta Silva*, de 54 anos, comprou um apartamento em um condomínio no bairro do Socorro, na Zona Sul de São Paulo, com o intuito de realizar o sonho da casa própria. Porém, em menos de um ano, percebeu que a tranquilidade e o conforto não se tornariam realidade tão cedo.
Em três anos no condomínio, Roberta já passou por diversos episódios de estresse — tantos que, segundo ela, “não dá nem para contar nos dedos das mãos”, e ela tentou. Recentemente, ela chegou a pedir uma medida protetiva contra sua vizinha no prédio.
O caso teve início poucos meses após a entrega do condomínio pela construtora. Em uma noite, Roberta passou a ouvir gritos de socorro e sons de briga vindos de um apartamento próximo. Ao conversar com outros moradores por meio do grupo de WhatsApp do condomínio, descobriu que não era a única a ouvir os barulhos. No entanto, ninguém sabia exatamente de qual unidade partiam os sons.
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